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Introdução ao curso dos educadores

Autoria: Miriam Altman

O objetivo deste artigo é, em primeiro lugar, apresentar de forma sucinta alguns conceitos e descobertas fundamentais da psicanálise e em seguida fazer uma reflexão de como esses conceitos podem auxiliar os educadores na sua prática cotidiana.

Freud quando foi pela primeira vez apresentar a psicanálise nos E.U.A , nas suas cinco lições sobre a psicanálise, disse que os americanos não sabiam mas que ele estaria trazendo a "peste" para seu continente.

O próprio fundador desta ciência / arte sabia que suas intuições sobre o que seria o psiquismo humano e seu funcionamento não seriam aceitas sem impacto, dor e oposição. Mas provou ser um homem bem preparado e forte que pôde fazer frente as resistências à sua teoria.

Ele iniciou seus estudos e observações clínicas com as histéricas e percebeu que apresentavam uma quantidade enorme de sintomas físicos estranhos e aparentemente sem sentido, notou que o sentido estava oculto e desconhecido. A partir daí, ele foi elaborando um método que consistia em ouvir a paciente e através da sua interpretação ajudar a encontrar o sentido oculto.

As histéricas com freqüência apresentavam queixas referentes à sua sexualidade, que teriam sido molestadas pelo pai ou parente próximo. Depois de muito ouvi-las começa a perceber que elas não falavam propriamente de fatos reais, mas sim de suas fantasias e desejos.

Essas primeiras intuições levaram Freud a elaborar um corpo de conceitos teóricos e um método para investigação do psiquismo. Depois se ateve ao estudo dos sonhos o que deu acesso à sua formulação sobre o inconsciente. Essa foi a descoberta que possivelmente causou maior impacto tanto no meio científico quanto nos seus leitores.

Isto porque, até então, o que vigorava nas ciências era a idéia de que o homem era regido pela sua consciência; esta sim, era a soberana e tinha o domínio sobre tudo. Pensar que a maior parte da vida mental era regida por forças ocultas e desconhecidas traziam um desconforto considerável e uma reação compreensível de resistência e oposição.

Dessa forma em meados de 1900, surgia a famosa e importante 'Interpretação dos Sonhos", onde Freud elabora um método de interpretar os sonhos partindo de seus próprios. Em termos de sua teoria ocorrem contribuições importantes.

Os sonhos têm um sentido assim como os sintomas; através da análise dos sonhos é possível ter acesso ás experiências antigas que foram submetidas à repressão. À noite, quando a barreira da censura está diminuída, é possível que estes conteúdos inconscientes venham à tona, com uma forma que nos é estranha, pois surge de maneira deformada pelo efeito de mecanismos inconscientes que Freud chamou de deslocamento e condensação.

Nota-se a genialidade de Freud quando pensamos em quantas coisas ele pôde perceber aonde muita gente não viu nada e nem parou para observar. Mostrou como os sonhos nos aparecem através de imagens plásticas formando às vezes uma verdadeira obra de arte, a presença constante de símbolos, a deformação, condensação e deslocamentos, enfim vários processos que evidenciavam um funcionamento mental rico e criativo sem que tivéssemos o menor acesso consciente ao que estava se passando.

A princípio falou em dois sistemas que se relacionavam, o consciente e o inconsciente sendo que o inconsciente determina o nosso comportamento, ações e emoções e na maioria das vezes não nos damos conta. Não sabemos muitas vezes porque fazemos ou sentimos certas coisas, mas nem por isso deixamos de ser como somos. Daí surge a importância que a psicanálise atribui ao desconhecido que existe em todos nós, ao qual podemos nos aproximar através da análise.

A angústia com que o ser humano tem que lidar desde que nasce se relaciona fundamentalmente a esse fator. Por esta razão, enquanto educadores, é fundamental poder ter este olhar compreensivo para as crianças que, na maior parte das vezes, apresentam comportamentos e sintomas que fogem totalmente de uma explicação racional.

Depois Freud formulou sua segunda teoria sobre o aparato mental onde elaborou os conceitos de Ego, Id e Superego dos quais vocês já devem ter ouvido falar. Gostaria de ressaltar que não temos a pretensão de apresentar a teoria da psicanálise, mas sim uma breve introdução sobre alguns conceitos que podem ser úteis para a compreensão da formação do psiquismo.

O psiquismo se constitui do ego-o mediador entre o id, superego e a realidade. As funções egóicas são fundamentais para o bom desenvolvimento da personalidade. São elas: atenção, memória, controle voluntário das ações, consciência, contato com a realidade, flexibilidade. Estas funções são desenvolvidas, ninguém nasce com elas prontas.

O superego diz respeito à relação da criança com seus pais, são as introjeções de valores, as identificações, os aspectos da ética e da moral. O id é, em sua maior parte, inconsciente, refere-se mais à vida instintual, dos desejos e fantasias.

Não devemos olhar para o aparelho psíquico como algo concreto, constituído de lugares físicos, mas sim como um campo emocional onde estão presentes um grande dinamismo com forças diversas, que, ora são harmônicas e concordantes, outras vezes, opostas e divergentes, por isto os conflitos psíquicos fazem parte da natureza humana.

Neste sentido podemos entender que o desenvolvimento psíquico de uma criança não se dá em uma única direção e num continuum, mas sim em idas e vindas, altos e baixos e que as crianças desde bebes sentem angústia, dor, alegria e satisfação, tudo esta presente, mas ainda em forma embrionária no psiquismo infantil. 

Citando Serge Lebovici: "A imagem idealizada da infância como período de felicidade não importunada é, na verdade, um fantasma projetado pelo adulto. Contudo, mesmo aqueles que reconhecem a importância dos conflitos no desenvolvimento psíquico da criança ficam tentados a considerar a aparição da angústia na vida da criança como um sintoma".

Freud também contribuiu muito para a compreensão do desenvolvimento da criança, quando escreveu os seus "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade infantil" aonde descreve a evolução da sexualidade e do psiquismo infantil. Enfatizando a conflitiva edípica como núcleo das angústias e fantasias das crianças. 

Ele recorre ao mito de Édipo, escrito por Sófocles, dramaturgo grego, usa da tragédia grega para elucidar aspectos fundamentais e universais da mente humana, mostrando a presença de sentimentos profundos de amor, ódio, rivalidade e paixão presentes no psiquismo humano e na relação entre filhos e pais.

Gostaria neste ponto de lembrar as importantes contribuições de uma psicanalista inglesa, Melanie Klein. Ela notou que a vida psíquica existe desde o nascimento. Diferentemente de Freud ela antecipa as vivencias emocionais para os bebes, através da observação de crianças mais velhas que já falavam, faz inferências sobre o funcionamento da mente primitiva.

Constata que o amor e ódio são constituintes da vida mental e que cada um de nós já nasce com esses impulsos e emoções. Dependendo da relação com o meio, sobretudo do primeiro contato com a mãe é que a criança vai desenvolvendo a sua personalidade.

Se a criança nasce com uma dose grande de voracidade e agressividade e se depara com uma mãe pouco acolhedora, provavelmente terá mais dificuldade em se desenvolver. Em contrapartida, às vezes vemos crianças com boas condições inatas próprias que conseguem se desenvolver emocionalmente apesar de estar em contato com um ambiente hostil.

As variações e arranjos são inúmeros, o importante é notar que são as condições internas de cada um na sua relação com o ambiente, por isto também é impossível falarmos em regras, normas e em receitas.

Por isso a nossa proposta é oferecer o nosso conhecimento sobre a constituição do psiquismo nos baseando em nossa própria experiência pessoal e clínica, mas fundamentadas nos conceitos psicanalíticos. Transportar tudo isso para o âmbito da educação tem sido o nosso desafio, para tanto contamos com a experiência e observações de vocês.

Esta experiência tem nos trazido algumas reflexões e indagações que vamos descrever a seguir. A partir de alguns dos conceitos descritos acima podemos antever boas perspectivas para ampliação do conhecimento dos educadores e aplicação na educação com os devidos cuidados.

O próprio Freud quando se referia à aplicação da psicanálise a pedagogia afirmava que "de todos os temas estudados pela psicanálise, esse parece ter a maior importância, em vista das magníficas perspectivas que oferece para o futuro".

Não temos a pretensão de achar que a transmissão de conceitos por si só bastasse para a resolução de problemas mentais de desenvolvimento. Por isto é fundamental que os adultos e educadores se dêem conta de como a sua própria personalidade influi na relação que estabelecem com a criança.

Citando novamente Freud, ele dizia que a "análise dos mestres e educadores parece ser uma medida profilática eficaz". É tarefa importante que o educador no contato com as crianças se ocupe do que se passa com ele próprio, e possa discriminar o que é seu do o que é da criança. Essa observação de seus próprios sentimentos e emoções frente às suas experiências é que pode ser útil para compreender o que se passa na relação e encontrar alternativas.

Podemos introduzir os conceitos que Freud formulou de transferência e contra transferência. São conceitos muito úteis que estão sempre presentes nas relações humanas. Quando Freud se referiu pela primeira vez às transferências, falava de um fenômeno psíquico onde uma situação que já fora vivida anteriormente se repetia. Por exemplo: uma criança que vive na sua relação em casa com os pais uma situação emocional de muita dependência e submissão pode na escola com a professora repetir esse comportamento, sem que a professora tenha qualquer responsabilidade nesse tipo de reação emocional da criança.

A contra-transferencia refere-se à reação emocional intensa, usando o mesmo exemplo, se o adulto sente muita raiva em perceber esta relação dependente e submissa da criança e reage com ódio e brutalidade. Dizemos que essa reação exagerada do adulto é coisa dele não elaborada, ou seja, reage automaticamente sem poder refletir no que este aspecto da criança suscita nele, educador.

Por isto é fundamental que o educador, além de ter acesso a estes conhecimentos e se aprofundar no estudo, possa também dar a devida dimensão para a influência que a sua própria personalidade tem nas suas intervenções com a criança. Pois se não o fizer, corre o risco de tratar o processo e a relação educativa como algo exterior a ele mesmo do qual tece explicações e usa de racionalizações destinadas a justificar uma conduta na realidade não organizada, impulsiva e exterior a ele mesmo.

Usando do referencial psicanalítico devemos notar que alguns aspectos de nossa personalidade nos são acessíveis, mas a maioria não. Portanto, estamos lidando o tempo todo com o que é inconsciente e desconhecido.

Nossas pressões internas, expectativas, desejos e projeções estão sempre presentes nas relações que estabelecemos. As crianças por sua vez são bastante sensíveis e captam certos aspectos da relação que não estão expressas nas palavras e reagem muitas vezes ficando agressivas, confusas e fazendo manipulações.

Desta forma, cabe ao adulto investigar primeiro em si mesmo, depois na sua relação com a criança, a que tipo de estímulo pode estar reagindo, assim as relações dentro do âmbito da escola podem passar a ser objeto de observação e reflexão.

É necessário considerarmos a complexidade do nosso campo de observação. Quando falamos da teoria e da prática da psicanálise, estamos falando de um campo muito bem delimitado com o mínimo de intervenções possíveis.

A escola é uma instituição, onde existem vários tipos de relações e de interesses presentes. A direção da escola, os pais, os educadores e as crianças. Isto é que dá o caráter da complexidade, mas ao mesmo tempo é o que torna o campo rico, múltiplo e interessante.

Gostaríamos de ressaltar as diferenças no tipo de intervenções; pedagógica e psicoterapeutica. Se for possível um acompanhamento do desenvolvimento infantil de forma compreensiva e integrada, veremos que muitos conflitos e dificuldades podem ser resolvidos dentro do âmbito da própria escola, envolvendo pais e educadores; possibilitando que situações mais graves e complicadas sejam encaminhadas em tempo certo para um psicólogo ou psiquiatra.

"Quanto mais o distúrbio pareça acidental e pouco enraizado na personalidade, mais ele depende de uma readaptação pedagógica ou de uma reeducação, enquanto que o tratamento psicoterapeutico encontra uma indicação mais precisa nas estruturas neuróticas nítidas ou quando há persistência de conflitos precoces. O psicanalista coloca-se na perspectiva do restabelecimento, da adaptação do sujeito e procura um remanejamento da dinâmica profunda dos distúrbios expressos pelo sintoma".

(Psicanálise e Educação - Serge Lebovici)